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J. T. Meirelles - O Rei do Samba-Jazz

O saxofonista João Theodoro Meirelles, conhecido por J.T. Meirelles, que formou, com Manuel Gusmão (baixo), Luiz Carlos Vinhas (piano), Dom Um Romão (bateria) e Pedro Paulo (trompete) o célebre grupo instrumental Copa 5, morreu na terça-feira de madrugada, no Rio. O músico sofria de problemas no estômago, que não chegaram a ser diagnosticados por médicos, conforme contaram amigos seus. Meirelles foi encontrado já sem vida pela ex-mulher e a filha, por volta das 7h30 da quarta-feira. Foi neste horário que as duas chegaram ao apartamento em que ele morava - justamente para levá-lo a um hospital, onde o instrumentista seria submetido a exames. Ele tinha 67 anos. O enterro, na tarde desta quarta-feira (o4 de junho de 2008), no Cemitério do Catumbi, foi acompanhado por músicos de sua geração, como o pianista Osmar Milito e o saxofonista Nivaldo Ornelas, e admiradores mais jovens. "Ele tinha certa resistência a procurar um médico. A família fez força nesse sentido, para que fosse feito um diagnóstico preciso, mas não conseguiu", lamentou o pianista Rafael Vernet, que tocou com Meirelles até o ano passado. "Ele teve uma importância indiscutível para a música brasileira e felizmente teve esse reconhecimento, no final da vida", continuou Vernet, referindo-se ao relançamento de discos do saxofonista, que motivou uma série de shows pelo País e o deixou "muito contente." Meirelles iniciou sua carreira profissional aos 17 anos de idade, tocando saxofone no conjunto de João Donato. Em seguida, mudou-se para São Paulo (SP), onde atuou com o pianista Luís Loy. De volta ao Rio de Janeiro, formou o grupo instrumental Copa 5, com o qual se apresentou no Bottle's Bar do Beco das Garrafas (RJ), executando suas próprias composições. Em 1963, escreveu o arranjo musical da gravação original de Mas que nada, primeiro grande sucesso de Jorge Ben (hoje Jorge Benjor). Seu saxofone tenor está também em outra gravação histórica da MPB: Quintessência - clássico do samba-jazz regravado à exaustão pelos grupos instrumentais dos anos 60. O trabalho com Jorge Benjor obteve grande repercussão e lhe valeu o convite, por parte do produtor musical Armando Pittigliani, da Companhia Brasileira de Discos (hoje Universal Music), para integrar o cast de artistas da gravadora. Em 2005, em entrevista ao Estado por ocasião de um disco inédito, Esquema Novo (gravadora Dubas), Meirelles falou de seu arranjo mais famoso, para a canção Mas que nada, de Jorge Ben Jor. "É como em New York, New York. Você ouve aquilo e já sabe o que vem", compara Meirelles. Meirelles contou que procurava ter sempre a mesma "atitude ingênua" que tinha aos 20 anos em relação à música. "Não tínhamos som, luz, mídia, mas ainda assim era a música que a gente gostava de fazer. Tinha consciência de que a palavra jazz tinha ligação direta com a cultura americana. Foi o veículo em que aprendi a tocar e a me desenvolver como músico. Hoje a minha preocupação é fazer as coisas cada vez mais simples e com mais brasilidade, mas sem desviar daquilo que já vinha fazendo." Em 2001 a Dubas relançou seus primeiros álbuns, O Som (1964) e O Novo Som (1965). Coincidiu com a redescoberta do samba-jazz por uma nova geração de músicos e ouvintes. No ano seguinte, veio o inédito Samba Jazz!!, também pela Dubas. "Essa redescoberta me surpreendeu porque continuo fazendo a mesma coisa de sempre. Durante 30 anos não levava a sério a música instrumental, não achava que se podia viver disso, pior ainda com uma conotação jazzística", avalia. "Quando decidi fazer isso de novo, minha primeira atitude foi refletir sobre os instrumentistas que assumiram posições de artistas. Músico toca de tudo, mas como artista você tem de se definir." (Fonte: Roberta Pennafort para o Estado de São Paulo).